Desde
sempre, a cor, ou a ausência dela, tem sido muito presente e importante
em minha vida.
Meu
pai, daltônico, via o mundo em branco e preto. Para ele existia
o escuro - sem luz, e o claro - iluminado. Entre eles havia inúmeros
tons de cinza - mais ou menos luz. Com meu pai aprendi que no preto
há mais luz que no vermelho, portanto, ele é mais claro. Aprendi
que a mistura de todas as cores é tão clara que elas acabam se perdendo
e só se vê a luz: o branco. Papai me mostrou o mundo sem cor, o
claro-escuro, a luz e sombra. No entanto, olhando meu pai pintar
seus grafites e seus óleos em branco e preto percebi que até no
preto há cor. Existe o preto azulado, o preto esverdeado, o preto
acinzentado e até o preto esbranquiçado. A própria ausência de cor
pode ser colorida!
Minha mãe, ansiosa quanto a minha visão, me ensinou as cores desde
que eu era um bebê. Eu engatinhava entre os panos e os retroses
de linha coloridos de suas costuras entregando-lhe na mão a cor
que ela pedia. Para seu alívio, eu acertava sempre não só a cor,
mas também os tons, contou-me ela. Mamãe via o mundo colorido e
tinha extraordinária habilidade manual. Pintava e bordava tudo.
Até móveis e paredes. Entre suas tintas e linhas eu vivia num mundo
de cor, texturas e tramas. Com ela aprendi a perceber, distinguir
e entender a linguagem e o sentimento das cores. Aprendi que existe
a cor que excita e a cor que acalma; a cor que grita e a cor que
cala; a cor que esquenta e a cor que esfria; a cor que alegra e
a cor que entristece. Há cores que se juntam e há as que se separam;
as que andam de mãos dadas e as que brigam. Há até as que fazem
as cores fazerem as pazes!
Desde criança fui a ajudante cromática de meus pais. Ajudava Papai
a combinar a cor da gravata, a montar rádios indicando-lhe as cores
dos fios que devia ligar, a separar no balcão do depósito da loja
os cortes de tecidos dizendo-lhe as cores dos fardos. Mamãe sempre
gostava de saber o que eu achava deste rosa fuccia para o vestido
do casamento da filha da D. Mariazinha, ou seria melhor aquele azul
maravilha?. Que tal pintar o aparador da cozinha de amarelo limão?
Minha avó paterna colecionava os papéis coloridos metalizados da
bala de leite da Kopenhagen para fazermos quadros. Alisávamos os
papeizinhos com a unha, recortávamos formas para fazer casinhas
e bonequinhos, árvores, flores e gramas, lagos e montanhas, nuvens,
estrelas, sóis e luas, e colávamos numa folha de cartolina montando
uma paisagem. Com ela aprendi a compor as diferentes formas.
Minha tia, irmã de Papai, possuia um tesouro. Eram dezenas de colares,
pulseiras e brincos de contas coloridas que arrumávamos e re-arrumávamos
nas caixinhas, separando-os por gama de cores. Com ela aprendi a
combinar tons e matizes.
Gostava de ficar olhando minha mãe, minha avó e minha tia pintarem
seus óleos e, principalmente, de vê-las misturar as cores nas palhetas.
Me perguntava como é que o azul e o amarelo de repente viravam verde!
Queria eu mesma fazer estas misturas mas, infelizmente não me era
permitido mexer nas tintas. Mesmo assim, olhando, aprendi a perceber
o peso das cores e a combiná-las.
No jardim de infância, adorava mergulhar os dedos nos potes de guache
e, como eu dizia, "colorir o papel branco" vendo a cor se transferir
para ele que, parecia, ia ganhando vida. No primário, passava horas
colorindo mapas com lápis de cor de pontas cuidadosamente afinadas
com gilete.
Quando entrei para o ginásio, passei a ser a feliz proprietária
de uma espetacular caixa de lápis de cor, de grife alemã, comprada
na Casa Mattos. Era um estojo de couro que ficava em pé expondo
40 lápis de cores diferentes como se fosse um painel iluminado.
Me foi entregue por meu pai e minha mãe, em solenidade especial
na sala de jantar, no dia do meu aniversário. Com ela colori cubos,
prismas, cones, esferas e tudo que era papel que me passava pela
frente.
Quando eu estava no clássico, surgiram os marcadores amarelos. Com
eles eu coloria os trechos mais importantes ou impactantes dos livros.
As passagens mais ou menos importantes eu grifava com caneta vermelha.
As passagens pouco importantes com caneta azul e as passagens nem
um pouco importantes com lápis preto. Assim, lia e coloria épicos,
tragédias e comédias, cidades, serras, sertões e veredas, moinhos
de vento, náuseas e até baratas.
Já na Faculdade de Turismo havia marcadores de várias cores e eu
coloria teorias e técnicas, planejamentos e organizações, programas
e roteiros, ofertas e demandas, e fazia o melhor dos marketings
policromáticos.
Trabalhando no Aeroporto do Galeão, amenizava a mesmice do check-in
indo para a pista ver o céu se colorir por trás do prateado dos
aviões. Quando secretária, driblava o tédio dos textos que datilografava
usando a fita vermelha da máquina de escrever nos títulos e subtítulos,
para grande descontentamento de meus austeros chefes. Com o advento
do computador, minha velha caixa de lápis de cor voltou sob a forma
de fonte microsoft e eu podia colorir à vontade.
Em 1995, pouco antes de me aposentar, passava pela rua quando vi
um anúncio de aulas de tapeçaria de agulha. Resolvi entrar. Não
sai mais.
A tapeçaria é a própria expressão da cor. Quanto mais cores tiver,
mais bela e valiosa será. Nela tudo depende e está ligado à cor.
A forma e a cor são uma coisa só, são um amálgama onde uma não existe
sem a outra. A passagem de cores pode ser sutil, delicada ou pode
ser brusca. Para que isto aconteça é preciso não só usar vários
tons e matizes como também escolher os pontos de tapeçaria de agulha
apropriados. Uma cor pode dar vida à cor que está ao seu lado, mas,
também pode matá-la. Por outro lado, um determinado ponto pode inverter
isto. Uma agulhada de um certo ponto com linha de uma certa cor
pode clarear ou escurecer uma parte do trabalho. Uma cor ou um ponto
podem iluminar ou sombrear por inteiro a tapeçaria. Há tons, cores
e pontos que harmonizam, balanceiam o desenho pois são próprios
para determinadas formas. Há outros que o desestruturam ou desequilibram,
porque são mal dimencionados para a forma. Essas técnicas de execução
e aplicação de pontos, aplicação e combinação das cores, diferentes
efeitos e composições, luz e sombra, forma plástica do desenho,
texturas e estrutura de materiais aprendi com as tapeceiras Alicia
Bednareck, Inalda Alves, Angela Calvão, Maya e Maria do Carmo Dinis.
A tapeçaria de agulha me levou ao tingimento de fios e tecidos,
que aprendi com Tereza Pavarini e Maria Lucia Azara, e à pintura
(livre, de ponto contado, em transparência e em photoshop) da talagarça,
onde fui orientada por Maya e Silvia Salles Pool.
A tapeçaria me levou também para a tecelagem em teares de bastidor,
de pente liço, e vertical (chileno). Novamente me fascinou a mágica
das cores que surgem em combinações as mais variadas quando a posição
dos fios é alterada a cada movimento de puxada de cabo, troca de
cala ou subida de régua. Rita Speranza e Heitor Moraes foram meus
instrutores nessas técnicas. Ines Carrelhas me ensinou a opor cor
e ausência de cor criando espaços vazados, alto relêvos e terceira
dimensão em tear de bastidor.
Sempre dei mais atenção à cor do que à forma ou ao espaço - meras
consequências da cor ou da não-cor. Preciso da cor para criar a
forma e me situar no espaço. Meu pai dizia que minhas formas sumiram
ou que caíram do papel; que subiam uma montanha ou desciam uma ladeira.
Minha mãe falava que meu ponto atrás era muito atrás ou muito na
frente, que meu ponto cheio era meio vazio e que meu chuleado era
um caminho de rato. Dizia que "essa menina tem duas mãos esquerdas,
nem consegue segurar uma agulha direito".
Hoje, aos 60 anos, vejo minha arte têxtil como o resultado de uma
profunda vivência, ou mesmo profunda convivência, com a cor e a
não-cor. Pelo gosto que tenho por elas e pelo prazer que tenho com
elas, aprendi a criar e compor as formas e a preencher ou deixar
vazios os espaços, com harmonia e equilíbrio. Não caio, não subo,
não desço - apenas passeio, dentro ou fora. Pela mesma razão, aprendi
a segurar a agulha de forma a delinear e posicionar bem os pontos.
Não fico atrás, não vou à frente, vazio é vazio, cheio é cheio e
nada de ratos - vou apenas dando linha, puxando linha e caminhando
na linha, ou em volta dela. Aprendi, ainda, a bater o tear com firmeza
e regularidade urdindo e tecendo com consistência. Creio, sem falsa
modéstia, que faço bem minha arte porque a faço colorindo. clareando,
escurecendo, iluminando e sombreando. Espero que dela gostem e que
me procurem.
EXPOSIÇÕES
COLETIVAS
<<<>>> Caminho Cultural das Artes Plásticas, universodasartes.com,
Centro Gastronômico de Vargem Grande, Espaço Cultural Manduca's,
Rio de Janeiro, NOV/2001.
<<<>>> Trama Carioca Oficina Têxtil, Arte de Portas
Abertas, Rio de Janeiro, NOV/2000.
PARTICIPAÇÃO
EM SALÕES
<<<>>> Salão Special, universodasartes.com, Centro
Cultural Caxambu, Caxambu, Minas Gerais, DEZ/2005.
<<<>>> VII Salão de Artes "Brasil Portugal, +
de 500 Anos de Brasilidade, Academia de Letras e Artes de Paranapuã,
Casa da Beira, Rio de Janeiro, JUN-JUL/2004.
<<<>>> I Salão de Artes "Conde de Linhares", Academia
de Letras e Artes de Paranapuã, Museu Militar Conde de Linhares,
Rio de Janeiro, MAR/2004. Ø
<<<>>> V Salão de Artes Plásticas Feirense, Casa
da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, Rio de Janeiro, OUT/2001.
<<<>>> XXV Salão Primavera, Sociedade Brasileira
de Belas Artes, Rio de Janeiro, SET-OUT/2001.
<<<>>> XXXVII Salão Feminino, Sociedade Brasileira
de Belas Artes, Rio de Janeiro, AGO/2001.
PREMIAÇÕES
<<<>>> Árvore
com Pencas
<> Certificado Ouro, Salão
Special, universodasartes.com, Caxambu, DEZ/2005.
<<<>>> Caravela
<> Menção Especial, VII Salão de Artes "Brasil Portugal, +
de 500 Anos de Brasilidade", Academia de Letras e Artes de Paranapuã,
Rio de Janeiro, JUL/2004.
<<<>>>
Flor Destorcida
<> Menção Especial, VII Salão de Artes "Brasil Portugal, +
de 500 Anos de Brasilidade", Academia de Letras e Artes de Paranapuã,
Rio de Janeiro, JUL/2004.
<<<>>>
Galos
<> Certificado Ouro, Salão Special, universodasartes.com,
Caxambu, DEZ/2005.
<>
Medalha de Prata, I Salão de Artes "Conde de Linhares", Academia
de Letras e Artes de Paranapuã, Rio de Janeiro, MAR/2004.
<<<>>>
Árvore
<> Menção Honrosa, V Salão de Artes Plásticas Feirense, Casa
da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, Rio de Janeiro, OUT/2001.
<>
Medalha de Bronze, XXXVII Salão Feminino, SBBA - Sociedade Brasileira
de Belas Artes, Rio de Janeiro, AGO/2001.
<<<>>>
À Luz da Menorah
<> Menção Honrosa, V Salão de Artes Plásticas Feirense, Casa
da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, Rio de Janeiro, OUT/2001.
<<<>>>
Pássaros
<> Certificado Ouro, Salão Special, universodasartes.com,
Caxambu, DEZ/2005.
<>
Grande Medalha de Bronze, XXV Salão Primavera, SBBA - Sociedade
Brasileira de Belas Artes, Rio de Janeiro, SET/2001.
CATALOGADA
<<<>>> Livro
Marchand, ed. 2006, realização e coordenação Jr Stavale, Portal
das Artes, www.universodasartes.com.
OUTRAS
ATIVIDADES
<<<>>> Elaboração e execução de projetos sob encomenda
<<<>>> Aulas de tapeçaria de agulha.
