MENSAGEIRA
DA POESIA
Alice
Amarante é a prova viva de que uma vocação para a pintura pode despertar
em qualquer momento mágico desta viagem que chamamos de vida.
O
caminho foi longo. Fascinada pelas artes visuais desde os tempos
em que estudava num colégio interno, ela se exercitou despretensiosamente
no campo de desenho, ao longo de toda sua existência. Os resultados
desse trabalho intermitente, porém fecundo para a alma, ficaram
resguardados na concha da modéstia que acompanhou seus solitários
devaneios de artista diletante. Sua hora decisiva chegou mais tarde,
no momento em que os netos já borboleteavam à sua volta. Como qual
colhe um fruto pelo qual se espera pacientemente que amadureça,
ela decidiu experimentar o desafio maior da sua grande paixão latente
- a pintura - e tornou-se aluna de um curso livre, no ateliê do
pintor Castelo Branco.
Não
foi sem surpresa que ela constatou a facilidade que possuía para
o ofício de transformar as paisagens do mundo em poesia multicolorida
sobre a tela. Mas, no fundo, ela se deliciou em comprovar na prática
sua aptidão inata para as artes - em mergulhou no universo apaixonante
das tintas, pincéis e espátulas. Então deu-se conta de que uma força
espantosa crescera dentro dela secretamente. Era essa flor da alma
que se chama talento, crescendo em busca de mais luz.
Sábios
foram os estímulos e conselhos que recebeu de seu mestre, que sempre
a impulsionou no caminho mais difícil e mais verdadeiro da liberdade
no gesto e na cor. E não faltaram incentivos de seus colegas de
aula, que se admiraram com a rapidez que ela desenvolveu seu dom
artístico e adquiriu um estilo pessoa de pintar, que vem-se consolidando
a cada dia.
Passados
três anos e meio de aprendizagem, é gratificante verificar que sua
pintura superou a etapa da simples promessa. Seus trabalhos já não
se configuram como jogos de aprendiz. Mesmo sendo uma pintora ainda
em processo de formação, na aurora das descobertas técnicas básicas,
Alice Amarante já nos oferta inegáveis conquistas e beleza plástica
e de harmonia cromática. Seus quadros devem ser apreciados como
colheitas de uma alma sensível; que soube fertilizar a soma das
suas experiências vividas, e fez desabrochar com serena determinação
a sua sincera vocação para as artes plásticas.
Nesta
sua primeira exposição individual, Alice Amarante apresenta, basicamente,
três temas - marinhas, casarios e flores. Os dois primeiros assuntos,
elaborados em sua maioria sob a supervisão do Professor Castelo
Branco, revelam uma pintora que paleta rica e luminosa, que já busca
as cores no fundo da alma, ao invés de simplesmente copiar as paisagens
que escolheu para modelo. São obras que nasceram dos encantamentos
espontâneos da artista com as belezas naturais de paisagens como
uma praia esplendorosa de Búzios, um lírico jardim parisiense ou
um bucólico casario da pequena Cidade de Sabará, no interior de
Minas Gerais. São quadros que demonstram que as imagens das cores
e por texturas mais audaciosas, dinamizadas por vibrações óticas
que evocam as lições dos mestres do Impressionismo. Os fundos de
suas telas também já estão sendo configurados com maior desenvoltura,
ao ritmo de cores feitas de pura emoção e projetadas em pinceladas
mais descontraídas. No conjunto, essas pinturas já evidenciam qualidades
notáveis, como a firmeza do desenho, a sabedoria na construção da
luminosidade, e uma doce capacidade de harmonizar tonalidades frias
e quentes.
Mas
é na intimidade de seu ateliê que Alice Amarantes pinta sua temática
preferida, aquela que nos revela o melhor de sua sensibilidade -
as flores. Fascinada por essas obras-primas da mãe natureza, a pintora
articula olhos de sonho com mãos de fada, para captar e nos transmitir
a majestade dos girassóis, a sutil delicadeza das orquídeas, a pureza
ativa dos lírios. É com suave paixão que ela nos oferta a riqueza
cromática das hortênsias, a verticalidade "espiritual" das Palmas
de Santa Rita e a vermelha vivacidade dos hibiscos. Seus quadros
de flores são, visivelmente, filhos da alegria e do prazer de pintar.
Eles nos colocam em contato direto com esse universo inefável que
é a "música" das cores, com esse milagre palpável das formas florais,
que possuem uma harmonia tão matemática quanto espontânea. Seus
quadros de flores trazem à luz a dádiva maior das belezas que a
pintora construiu no silêncio diante desse formidável mistério que
é a Vida, na sua espantosa diversidade.
Alice
Amarante é uma lúcida mensageira da inesgotável poesia da Natureza.
Na idade desprendimento e da depuração dos sentimentos em busca
do essencial, ela soube transformar o que era sonho juvenil em autêntica
vocação, para nos ensinar que os frutos da arte não têm limites
do corredor do tempo.
(Mário Margutti Março de 1995)
